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Um pedacinho do Paraguai na zona oeste de São Paulo

A cena se repete todo fim de tarde, especialmente aos sábados e domingos: um grupo de homens se reúne para jogar bola na Praça Nicolau de Morais Barros, enquanto crianças se divertem brincando. Localizado na Rua do Bosque, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo, o lugar também é conhecido como a praça dos paraguaios. De fato, eles são maioria no entorno da pracinha, revitalizada em 2010 graças aos esforços dos imigrantes. Antes, o espaço estava abandonado e repleto de mato. Agora, se consolidou como ponto de encontro de pessoas que se unem em um país diferente em busca de apoio e, claro, tentam matar um pouco as saudades de casa.

Um dos primeiros a chegar foi Humberto Jara, que mora em São Paulo há 40 anos. Ele decidiu se mudar para evitar os rigores da ditadura militar paraguaia. "Vim por razões políticas e fiquei. Depois de anos passando dificuldades, decidi que não quero deixar os paraguaios passarem pelo o que eu passei: os problemas com documentação e emprego, por exemplo." Assim nasceu a Associação de Integração Paraguai-Brasil Japayke ("despertar", em guarani), que há dois anos auxilia imigrantes e faz uma ponte entre as necessidades deles e as autoridades brasileiras, além das centrais sindicais que apoiam o movimento.

Segundo dados do Ministério da Justiça, o Brasil tem hoje mais de 20 mil imigrantes paraguaios regularizados. Nos últimos anos, esse número cresceu 50%, de acordo com os registros da Polícia Federal - 348.704 pessoas vindas do Paraguai entraram no País em 2010.

Responsável pela Anistia Migratória, a Lei n.º 11.961/2009 foi outro fator importante para esse aumento, pois acertou a vida de cerca de 45 mil imigrantes que estavam em situação irregular no Brasil. Promulgada em 2009, ela dava direito aos estrangeiros que haviam entrado no País até fevereiro daquele ano a se tornarem cidadãos brasileiros.

Leo Ramirez veio para São Paulo em 2004, aos 18 anos. Como todo jovem, trazia na bagagem uma série de sonhos. Entre eles, fazer uma faculdade. "Um dia, jogando bola com uns amigos, ouvi um deles falar sobre um primo que estava vivendo aqui e conseguindo se virar. Conversei com ele e vim." Foi por meio de outros imigrantes que conheceu Jara e passou a ajudar na associação.

"O maior problema do imigrante paraguaio é estar em uma cidade grande, vindo de um país pequeno. A segunda dificuldade é o idioma e, depois, a documentação, que é a mais grave", afirma Jara.

A assistente social Carla Aparecida Silva Aguilar é gerente da Casa do Migrante. Para ela, a lei brasileira que protege imigrantes tem uma falha, pois leva em consideração apenas os aparatos legais da situação. "O governo considera tudo, mas não pensa onde essas pessoas vão ficar. Dão uma carteira de trabalho, mas não dão um lugar para morar. Como alguém vai procurar um emprego se não tem nem onde morar? Imagine para uma família viver num albergue."

Pesquisador do Centro de Estudos Migratórios da Casa do Migrante, Dirceu Cutti afirma que uma pessoa acaba atraindo a outra e, assim, formam uma rede. "Em todo lugar, os primeiros a saírem do país não são os mais pobres, são pessoas que apenas querem tentar a vida em outro lugar e têm condições para isso. A partir do momento que se estabelecem bem aqui, os mais pobres também querem vir e montam a rede", explica.

Para o futuro, a Japayke quer ter sede própria e firmar parcerias com o governo brasileiro, ajudando paraguaios que chegam e melhorando a vida dos que já estão na cidade. A Praça Nicolau de Morais Barros foi apenas o começo.

Fonte: Estadão - 13.11.2013

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