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Haitianos enfrentam preconceito e má-fé em Manaus

 Por Rosana Souza, na RBA

Do lado de dentro, como nos campos de imigrantes assustados da África, aproximadamente 50 jovens negros e altos, de dentes brancos desconcertantes, esperam por uma oportunidade de fugir do horror que assolou sua terra e aspiram por dias melhores, empilhados em colchões manchados de suor e redes.

A casa é uma das dezenas de residências de passagem espalhadas por Manaus, que abrigaram pelo menos metade dos 21 mil haitianos que entraram oficialmente no Brasil desde o terremoto de 2010. Os dados oficiais, entretanto, dão conta apenas dos que conseguiram o visto de residência permanente emitido pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIG), do Ministério do Trabalho e Emprego, e ignora um contingente que pode chegar a 15 mil pessoas, que permanecem à margem da existência social.

A capital do Amazonas não é, de maneira geral, a meta dos imigrantes haitianos que vêm ao Brasil. Mas a falta de estrutura nas cidades de porta de entrada para o país, a pujança econômica da cidade e a proximidade com as principais rotas de imigração fazem com que a maioria dos viajantes passe ao menos alguns meses na cidade, antes de buscar melhores oportunidades nas regiões Sul e Sudeste do país.

Desde o início do processo migratório, os principais pontos de entrada de haitianos no Brasil têm sido por Tabatinga, cidade amazonense que fica 1.106 quilômetros distante de Manaus, na fronteira com Colômbia e Peru, e por Assis Brasil e Brasileia, ambas no Acre, localizadas a aproximadamente 200 quilômetros de Rio Branco, na fronteira com a Bolívia.

Os locais são os preferidos pelos atravessadores, conhecidos como coiotes, devido à fragilidade de segurança das fronteiras nestes pontos. É diferente do que acontece em Santa Helena, por exemplo, na divisa da Venezuela com Roraima, onde existem rigorosos postos de fiscalização. Não fosse isso, o local seria a rota natural, graças à proximidade com o Mar do Caribe.

Mas quase todos os que chegam ao Brasil o fazem sem a emissão do visto em Porto Príncipe, capital do Haiti, e preferem pagar até US$ 5 mil dólares pela garantia de entrada no país, mesmo com a política de acolhida do governo brasileiro. “A história dos atravessadores sempre existiu, pois no Peru não se exige visto para entrar. Os coiotes se aproveitam da fragilidade do imigrante e as famílias se juntam para conseguir o dinheiro para poder mandar alguém para cá”, conta o padre Gelmino Costa, representante da Pastoral do Migrante em Manaus e um dos responsáveis pela Igreja São Geraldo, que tem funcionado como ponto de partida para muitos haitianos que chegam à cidade.

O padre mantém um registro próprio de pessoas atendidas. No caderno preto, igual ao que algumas empresas utilizam para a assinatura de ponto, estão registrados o nome, a idade e a data de chegada de cada homem e mulher que lhe confiou a vida.

Em Brasileia, falta de perspectivas leva a buscar alternativas, e Manaus vira destino preferencial
Há 37 anos trabalhando com imigrantes nos cinco continentes, Gelmino revela que o sonho inicial dos haitianos nunca é vir para o Brasil, e sim morar em países como a França, o Canadá ou os Estados Unidos, onde a história migratória é antiga. Mas o Brasil ofereceu ajuda e eles começaram a chegar. A viagem e o processo de adaptação em um novo país, no entanto, estão longe de serem agradáveis e dificuldades como falta de moradia, baixa renda e preconceito latente cobram seu preço.

Porta dos fundos

De acordo com os dados oficiais do Ministério da Justiça, em 2010 o Brasil acolheu 459 haitianos. No ano seguinte, o número pulou para 2.644 e continuou a crescer em progressão geométrica. Em 2013 o número de imigrantes que obtiveram o visto de residência permanente chegou a 13.669. Ao todo, já são 21.430 haitianos vivendo legalmente no Brasil e plenamente aptos ao trabalho.

Só pelo Acre passaram 15 mil imigrantes haitianos desde 2010, segundo informações do secretário estadual de Direitos Humanos, Nilson Mourão. Brasileia, cidade preferida dos atravessadores, possui apenas um abrigo, com capacidade para receber 300 pessoas por vez, e tem sido palco de uma crise desde o final de 2013, que resultou no pedido de fechamento da fronteira, feito pelo estado e negado pelo governo brasileiro. Neste espaço vivem atualmente 1.200 pessoas.

“Nunca tivemos mais de 500 ao mesmo tempo. As empresas vinham para selecionar empregados e levavam 200 pessoas de uma só vez. Mas com o período de férias as contratações pararam e o fluxo de imigrantes voltou a aumentar”, relata o secretário, que desde meados de janeiro está na cidade para coordenar os assentamentos.

Para piorar, é inverno na região Norte, período em que as chuvas são constantes e violentas. “Estamos tomando as medidas possíveis, construindo tablados, armando novas tendas, trazendo mais colchões. Colocamos equipes de saúde para tentar conter a disseminação de doenças. Mas a questão sanitária é muito grave”, lamenta.

Nilson conta que os ânimos estão exaltados e que um batalhão da Polícia Militar foi destacado para o local para tentar manter a ordem. “Eles não trabalham armados, mas é preciso tê-los lá. Estão todos estressados, eles vêm viajando há muito tempo, comendo mal, gastando muito dinheiro, estão prestes a explodir.”

Entre os imigrantes nesta situação estão 161 mulheres e dez crianças. O governo federal tem enviado regularmente uma ajuda de R$ 250 mil ao mês ao Fundo de Assistência Social. Mas o valor, segundo Mourão, é suficiente para manter apenas 600 pessoas. Diariamente, 70 novos imigrantes chegam à cidade.

Na terça-feira (21), o secretário esteve reunido com a ministra do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Tereza Campello, com o secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão, e representantes do governo do Acre para debater uma saída para o impasse. No encontro foi decidido que o Brasil manterá suas fronteiras abertas e um plano de longo prazo para o atendimento aos imigrantes deverá ser apresentado até o final do mês. “Ainda não definimos se serão construídos novos abrigos ou se iremos direcionar os haitianos para outras localidades, mas chegamos a conclusão que a única saída é trabalharmos juntos”, disse Mourão.

O recomeço

“Assim que puder quero ir para São Paulo porque lá tem mais dinheiro. Estou há um ano em Manaus e está difícil conseguir trabalho”, conta Lolo, um homem robusto de 40 anos, de pele negra e brilhante que o faz aparentar menos idade. Desde que chegou à cidade, Lolo muda de abrigo de três em três meses. Tempo máximo de estadia nas chamadas “casas de passagem”, nome dado aos assentamentos de refugiados.

Uma dessas casas é administrada pela organização não Governamental Ama Haiti, que faz a ligação entre imigrantes e empregadores. Eles abrigam temporariamente aqueles que chegam sem dinheiro e lugar para ficar. Em uma casa de três andares e cinco cômodos, a entidade acolhe em torno de 70 haitianos, mas já chegou a abrigar 400 em um galpão vizinho, em 2010.

Michael Pessoa, vice-presidente da Ama Haiti, conta que o trabalho sobrevive por meio de doações, assim como acontece em todas as residências temporárias da cidade. “Essas pessoas estão aqui porque querem uma vida melhor, trabalhar e constituir família onde haja condição digna para isso”, desabafa.

A Pastoral do Imigrante mantém mais cinco casas alugadas. Os espaços são fundamentais no processo de adaptação, já que Manaus possui o quinto maior déficit habitacional do país, segundo dados do Ministério de Cidades, e uma especulação imobiliária voraz, que faz com que o custo da moradia seja um dos mais altos do Brasil. O custo mensal com o aluguel de um quarto em Manaus é de R$ 500, em média. Preço alto demais, para quem ganha apenas um salário mínimo, ou até menos.

“Geralmente são os homens que vêm, as mulheres ficam em casa. Então, assim que conseguem trabalho, eles se juntam para alugar um quartinho e moram juntos”, observa Júlio César Fernandes, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na capital do Amazonas.

Nas casas de passagem os imigrantes participam de aulas de português, recebem alimentação, ajuda na emissão de documentos e na busca por uma colocação profissional. Mas encontrar empregos para todos tem se mostrado uma missão cada vez mais difícil, já que, com o passar do tempo, o perfil dos imigrantes foi mudando. “Algumas pessoas de Porto Príncipe tinham profissão. Eram professores, técnicos em informática, muitos ligados a construção civil. Mas os que chegam agora tem menos capacitação. No início, também, todos sabiam francês, agora são poucos, eles chegam aqui falando apelas creole”, o idioma oficial do Haiti, conta o padre Gelmino.

A faixa etária também mudou. Se antes chegavam jovens, de 20 a 35 anos, com o passar do tempo, a população mais velha, de 35 a 45 anos, pouco aceitos pelo mercado, também aderiu à imigração.

O sonho brasileiro

“Quando estava lá disseram que o Brasil tinha muito dinheiro, mas ainda não vi tanto assim”, relata o jovem Fanes Tuliem, de 26 anos, natural da cidade de Gonaives, no interior do Haiti. A afirmação reflete o pensamento que permeia a decisão de muitos haitianos que buscam no país a salvação, mas que, ao chegarem aqui, encontram dificuldades e desafios.

Em 2010, quando os primeiros começaram a chegar, a reação inicial foi de repulsa e medo. “O Haiti não é aqui! Eles estão ‘tomando de conta’ até dos empregos nas fábricas do Distrito Industrial dos portadores de necessidades especiais”, escreveu, à época, a colunista social de um jornal de grande circulação na cidade.

Mesmo com uma economia baseada em ondas migratórias, Manaus não estava preparada para o fenômeno haitiano. A cidade é, dentre as 27 capitais brasileiras, a 26º em número de negros, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os afrodescendentes representam apenas 7,9% da população. “Muitas pessoas reclamavam porque eles têm costumes e crenças diferentes. Os vizinhos dos abrigos reclamavam bastante”, relata Michael.

Logo, engenheiros, professores de idiomas, enfermeiros e mestres em antropologia passaram a atuar como frentistas, faxineiros ou cozinheiros. Com rendimentos beirando os R$ 600, a subsistência se mantém no limite do aceitável. Há ainda a má-fé de empregadores, que se aproveitam do vazio de saber para utilizar a força de trabalho imigrante de forma análoga a da escravidão. “Muitos empresários se aproveitam da condição deles para explorá-los e ficam meses sem pagar”, conta Michael Pessoa.

A fragilidade se dá pelo fato de que a maioria precisa enviar ajuda a familiares que permanecem no Haiti. “Por isso a família vende tudo para poder mandar a gente para cá”, afirma o jovem Fanes.

O envio de dinheiro é tão frequente que nas casas de câmbio e remessas financeiras a movimentação cresceu 30% nos últimos dois anos em Manaus, o que fez com que empresas, como a gigante Western Union, aumentassem seus investimentos na cidade, como relatou o gerente de desenvolvimento de Negócios da empresa, Carlos Eduardo Costa.

Com a possibilidade de rendimentos que podem chegar a R$ 1 mil, com impacto na melhoria da qualidade de vida, o sonho de boa parte dos haitianos que vivem na cidade é migrar para as regiões Sul e Sudeste, onde empresas de movelaria, tecelagens e construção civil frequentemente recrutam imigrantes. Apenas 40% dos que aqui chegam fixam residência em Manaus.

O buraco do mundo

Com tantas dificuldades e hostilidades, é difícil compreender por que os imigrantes continuam a chegar, cada vez em maior número, ao Brasil. “Estou aqui há um mês e ainda não consegui trabalho. Mas no Haiti é pior. Para nós, que somos jovens, é muito difícil, não vemos futuro. Não tem trabalho, só na polícia, que só faz matar. Não quero isso”, explica Joseph France Rucharde, um bombeiro eletricista de 22 anos.

Vizinho de ilha da República Dominicana, que tem uma economia próspera, baseada no turismo e na preservação ambiental, o Haiti possui intacta apenas 5% de sua cobertura florestal. Sem opções de geração de energia, a madeira foi sistematicamente utilizada para a produção de carvão. A situação deixou o país ainda mais vulnerável aos fenômenos naturais, como furacões e terremotos, como o que destruiu a capital Porto Príncipe em 2010.

A taxa de desemprego é de 80%, em média, e 85% das escolas são particulares, bem como o atendimento médico. Apenas 12% das terras são agricultáveis devido à geografia montanhosa da região. Colonizado inicialmente pela Espanha, que dizimou a população nativa conhecida como Aruaque (comedores de farinha), durante o primeiro ciclo de exploração de ouro, o país foi entregue à França, no século XVII, que passou a trazer escravos africanos para o cultivo de cana-de-açúcar e café. Com isso, a população negra se tornou a maioria no país.

Em 1791 ocorreu a primeira revolta de escravos, que resultou na criação da primeira república negra livre das Américas, em 1804. A partir daí, o país passou por ciclos sucessivos de má gestão e corrupção, que talharam as riquezas, tornando-o um dos países mais pobres do mundo, onde 22% do Produto Interno Bruto (PIB) vem de remessas internacionais.

“O Haiti já foi conhecido como a Mãe das Antilhas. Sempre foi um país com boas ideias, mas péssimos administradores. Alguns bairros de Porto Príncipe são muito bonitos, com casas suntuosas e elegantes. Tem pessoas muito ricas. Isso faz com que a população, de fato, não veja futuro”, relata padre Gelmino.

Mesmo com tantas dificuldades, o Brasil é, de fato, a única esperança para muitos daquele país. E já é considerado por aqueles que aqui vivem como a verdadeira mãe gentil. “Eu penso em voltar só para visitar minha família, passar três semanas no máximo. Mas não dá para viver, simplesmente não dá. Não é mais minha terra, minha terra agora é aqui”, resume Fanes Tuliem.

Fonte: Portal Vermelho 02.02.2014

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