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Refugiados reconstróem suas vidas investindo em receitas de seus países

Ludmilla de Lima - O Globo

RIO - O menu do almoço no restaurante Co.zinha, em Botafogo, tinha tempero forte do “gigante da África”. De entrada, akara, um bolinho parecido com o nosso acarajé; como prato principal, o apimentado arroz jollof e o nigerian beans, com feijão fradinho, banana da terra e camarão; na sobremesa, puff puff, que nada mais é que o nosso bolinho de chuva. Nesse dia, uma quinta-feira de outubro, quem comandou as panelas como chef convidada foi Lateefat Adunni Hassan, uma nigeriana de 38 anos que, há dois, deixou seu país aterrorizada pelo grupo fundamentalista islâmico Boko Haram, responsável pelo sequestro de mulheres e crianças. No Rio, ela tenta aplicar a experiência de seu país — onde trabalhou na cozinha de festas e eventos — para tentar sobreviver junto da filha menor, Thekiyat, de 7 anos.

Com um barrigão (o caçula nasce em dezembro), ela ainda tem outros três filhos na Nigéria, que pretende trazer para perto. Naquela tarde no Co.zinha, a procura pela comida de Lateefat surpreendeu: muita gente ficou sem experimentar o sabor exótico porque as 45 refeições (R$ 35 cada) esgotaram. Assim como ela, outros refugiados que chegaram nos últimos anos ao Rio investem o pouco que têm na culinária de seus países para reconstruir suas vidas. Essa onda vem contribuindo para diversificar a gastronomia da cidade. Em tempos de crise, ganham os novos chefs e também os clientes, que saboreiam, a preços convidativos, pratos incomuns no nosso dia a dia.

— Aqui gostam muito da minha comida — afirma, orgulhosa (e com muita dificuldade no português), Lateefat, que faz o arroz jollof com pimentão, cebola, tomate, gengibre, alho, canela, curry e “alligator pepper”, um tipo de pimenta típica da região da Nigéria, de onde saiu sozinha com a filha, sem conhecer ninguém aqui. — Eu vivia no norte da Nigéria com meu ex-marido e tivemos problemas lá com o Boko Haram. Entraram na nossa casa, tive que me esconder. Feriram meu ex-marido. Depois, eu vivia sempre doente e com medo. Minha família quis que eu saísse do país. Consegui um visto brasileiro e vim com a minha filha.

EVENTO MENSAL REÚNE CHEFS

Por meio da Cáritas-RJ, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Lateefat acabou entrando no coletivo Chega Junto, formado, basicamente, por refugiados, e que promove, no último sábado de cada mês, uma feira gastronômica, numa parceria com a Junta Local. A cada 15 dias, o Co.zinha também recebe um chef do coletivo. No grupo, há 20 famílias, de 15 países: além de Nigéria, Togo, Marrocos, Colômbia e Haiti. O espírito colaborativo domina os cozinheiros, que planejam para a próxima edição da feira, dia 25, um chá de fraldas, aberto ao público, para o bebê da nigeriana — um menino. A preocupação é que Lateefat terá que parar de trabalhar, embora arque sozinha com as despesas dela e da filha. Os gastos incluem o aluguel de R$ 500 de uma casa em Jacarepaguá.

Integrante do Chega Junto, a venezuelana Maria Elias El Wawrak, de 51 anos, também desembarcou há dois anos no Rio, junto com o marido, o engenheiro civil José Joaquin Rodriguez, e o único filho, Juan, de 8 anos. Cozinhar para ela era apenas um hobby. Filha de libaneses que imigraram com toda a família para a Venezuela nos anos 1960, Maria, que é técnica de informática, viu nos dotes culinários uma forma de ganhar a vida no endereço novo.

— Quando chegamos ao Rio, havia sírios vendendo comida em cada esquina. Falei com o meu marido que faria, então, comida venezuelana. Mas aqui eu não encontrava a farinha de milho, base da nossa comida — diz ela, que resolveu fazer o que chama de comida “100% libanesa. — Nosso quibe tem sempre hortelã; o dos sírios, não. Faço um quibe de abóbora com grão de bico que é muito comum no Líbano.

Maria também tem suas criações: faz pão árabe de cenoura, de gengibre e de abóbora com alecrim. Seu quibe cru é um sucesso. Além de participar de feiras, trabalha com encomendas e prepara na casa dos clientes jantares libaneses. A reviravolta na vida de Maria foi motivada pela crise econômica na Venezuela e por ameaças feitas à família. Ela conta que seu marido chefiou a obra de uma faculdade e foi alvo de extorsões de uma cooperativa. José chegou a desembolsar US$ 40 mil. A família não aguentou a pressão e agora tenta receber o status de refugiada.

Já Nelly Camacho, de 54 anos, fugiu dos paramilitares da Colômbia. Desde que aportou aqui, em 2012, trabalhou em diferentes empregos. Foi babá e recepcionista no Aeroporto Santos Dumont. Acabou vendo na gastronomia uma esperança de vida melhor.

— Nunca fui cozinheira, mas um dia me chamaram para um evento, pediram algo típico. Preparei empanadas e arepa — recorda ela, que acabou se virando tão bem que seguiu no ramo.

Coordenadora do Chega Junto, Luciara Mota explica que os chefs do coletivo atraem não só pelos novos sabores, mas por suas histórias. A de Nelly, por exemplo, daria um filme. Ela diz que vivia numa fazenda de 140 hectares, no Departamento de Meta, no centro do país, quando homens armados do Exército Revolucionário Popular Anticomunista da Colômbia tomaram a terra e aprisionaram toda a família dentro de casa. Eles chegaram a passar fome, até que, após fingirem estarem doentes, conseguiram fugir de moto.

Fonte: Extra

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