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As histórias de mães refugiadas que lutam para criar seus filhos no Brasil

Elas fugiram por conta da guerra, fome e fé. Marie Claire conversou com três mulheres - uma síria, uma venezuelana e uma sudanesa - sobre maternidade, gravidez, cultura e solidão

Por Aline Takashima

O clima é de festa. Mulheres de cabelos compridos, sombras escuras e vestidos colados beijam e abraçam Oula Alnakola, 26 anos. Um acontecimento está por vir. É o dia do batizado da pequena Naya. "O evento mais importante da Síria", confidencia Oula enquanto recebe os presentes da filha: vestido, sapatinho, tiara branca, talco e sabonete. Os convidados reúnem-se na Igreja Ortodoxa e acompanham o ritual. A cerimônia é toda em árabe. Entre uma ação e outra, as mulheres desejam saúde, felicidade e bênçãos e dão um gritinho agudo com a mão na boca, conhecido como zaghareet. Oula e os amigos não estão na Síria, o seu país de origem. E sim no Brasil, em Curitiba, capital do Paraná. É aqui, em um país onde nunca imaginou conhecer e morar, que Oula engravidou e tornou-se mãe – longe da sua família, cultura e terra.

Os refugiados escapam da guerra e de perseguições políticas, raciais e religiosas. Geralmente fogem às pressas – com poucos pertences ou quase nada, em uma travessia sem data de regresso. As mulheres e as crianças estão entre as mais vulneráveis. Não à toa, a Síria é o pior lugar do mundo para ser mulher, de acordo com recente estudo do Instituto Georgetown para Mulheres, Paz e Segurança que avalia 153 países. "O Brasil foi a nossa única escolha", explica a síria. O país é o novo lar de Oula e de outras mães refugiadas de diferentes nacionalidades que cuidam e criam os seus filhos.

É como é o caso de Nura*, 35 anos. Ela veio do Sudão acompanhada do marido e do filho, Renato, de um ano. Fugiu do maior país do continente africano por conta de perseguição religiosa. O Sudão enfrenta uma guerra civil envolvendo o governo muçulmano e cristãos. Nura era uma missionária evangélica e diretora de uma escola infantil quando foi chamada para depor em uma delegacia. Naquele dia, policiais perguntaram sobre sua relação com espionagem, religião e a sua família. Confiscaram o seu telefone e a sua máquina fotográfica. A partir daí, homens começaram a seguir o seu marido até o trabalho e vigiar a sua casa. Igrejas foram queimadas e amigos cristãos presos. Foi o suficiente para eles fazerem as malas e saírem do país, no ano de 2013. "Eu nunca pensei em morar em outro lugar. Mesmo que o Sudão tenha os seus problemas, é a minha casa. Essa saída aconteceu sem planejamento. Nós deixamos o nosso coração lá e saímos sem nada."

Solidão, amizade e família

Nura e a família vieram para Curitiba, uma cidade muito diferente de Cartum, capital do Sudão, onde moravam. A cultura e a língua são outras – no país africano os idiomas oficiais são árabe e inglês. Com tantas diferenças, ela se sente sozinha. Ainda mais por ser a matriarca da única família sudanesa na cidade. No Brasil, a prole aumentou. Há uma semana, Nura deu à luz a Davi. Ela também é mãe de Daniel, 2 anos e Renato, 5 anos. "Como mãe refugiada em um país diferente eu me sinto só. Também sinto muita falta do meu trabalho. É difícil criar os filhos em outro país. Eles não têm mais ninguém aqui – só os pais."

Maria Luiza Rojas, 30 anos, sabe o que é solidão. É a caçula de uma família com três irmãs, e está acostumada com os conselhos e a sabedoria das mulheres que a rodeiam. Em 2015 saiu da Venezuela com o marido para fugir da pobreza e da miséria que assolam o país. Desde então mora no Brasil - e nunca se sentiu tão só. O seu primeiro filho, Gabriel Matias, nasceu há dez meses. Ela enfrentou uma gravidez de risco, um parto complicadíssimo e dificuldade para amamentar. A venezuelana morava na Ilha de Margarita, um paraíso com praias transparentes, situado no mar do Caribe – um dos principais destinos turísticos do país. Trabalhava em uma biblioteca e em um cassino da região. O seu marido era guia turístico.

O casal tem curso superior completo – ela é formada em Biblioteconomia e ele em Turismo. Eram felizes e faziam planos para o futuro até perderem o emprego. A crise atingiu as suas vidas. Tudo mudou. "Nós chamamos de crise, mas o que está acontecendo é uma guerra. E as coisas estão piorando", adverte. Eles chegaram a ficar até 10 horas em uma fila para conseguir arroz e macarrão. No ano passado, os venezuelanos perderam em média 11 quilos. Nove em cada dez vivem abaixo da linha da pobreza, aponta a Pesquisa sobre Condições de Vida (Encovi), realizada pelas principais universidades da Venezuela. O levantamento da Cáritas Venezuela conclui que em bairros pobres e de classe média baixa, cerca de 15,5% das crianças entre 0 a 5 anos estão desnutridas. Outras 20% apresentam risco de entrar em desnutrição. "A gente pensa que nada pode ficar pior no país, mas as coisas estão terríveis. Pelo menos no Brasil a gente compra comida. O meu sonho é que os meus pais conheçam o meu filho."

A síria Oula também sente saudade. Ela lembra da sua cidade Damasco, capital de uma nação por mais de dois mil anos. Relembra os muros da cidade velha, o labirinto urbano apinhado de gente e, principalmente, do seu pai, alguns parentes e amigos. Desde que a guerra começou há sete anos, mísseis e bombas fazem parte do dia a dia do país. Quando ela veio para o Brasil, Damasco não tinha mais água potável, aquecimento e eletricidade. O seu primo e o seu vizinho morreram por conta do conflito. Oula e a sua filha Naya estão mais seguras no Brasil. Assim como os mais de 820 sírios que moram no país atualmente. Eles representam 35% da população refugiada no Brasil, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

No Brasil, Oula conta com a ajuda do marido e da sua mãe, avó de Naya. “Minha mãe me ajuda e me aconselha quando a visito. Elas são muito parecidas. Naya ama a vovó.” Para Marcia Ponce, coordenadora do projeto de integração para refugiados no Paraná, da organização Cáritas, um dos principais desafios para as refugiadas é criar um filho em uma cultura completamente diferente da sua. Outra questão para as mães é formar amizades e criar vínculos. "Uma imigrante disse que seria muito bom fazer amigos, pois o filho dela precisa de família, avós e tios. É importante criar relações de proximidade, ter com quem conviver."

Gravidez, violência e dor

A família de Oula chegou ao Brasil de avião. A venezuelana Maria e o seu marido Gabriel gastaram todas as suas economias para atravessar a fronteira de ônibus. Eles são um dos 30 mil venezuelanos que moram no país, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Maria teve o filho no Brasil. Começou a sangrar uma semana depois que descobriu que estava grávida. O médico pensou que era um aborto, mas ela não perdeu o filho. Continuou a sangrar por 15 dias. Após o episódio, permaneceu deitada durante toda a gestação. Até hoje não sabe o que aconteceu. Mas seguiu as recomendações médicas e só saiu da cama para ir ao banheiro e comer.

O hobby na Venezuela é o ganha-pão do casal no Brasil: malabarismo, circo e palhaçada. “A gente sobrevive com a nossa arte”, explica a venezuelana. Durante o descanso forçado de Maria, o seu marido trabalhou sozinho no semáforo. Ela conta que o parto foi uma das piores sensações da sua vida. Isso porque ela sentiu contrações fortíssimas por 16 horas e não conseguiu dilatação suficiente para o parto normal. "Eu suplicava para as enfermeiras e pedia para tirar o meu neném. Mas elas falavam para esperar. Foi horrível." O seu martírio só teve fim com a visita de uma advogada brasileira. A amiga conversou com a equipe médica, que prontamente realizou uma cesárea.

A Organização Warmis, formada por mulheres voluntárias, promoveu uma campanha contra a violência no parto de mulheres migrantes. Em um de seus manifestos afirma que "as mulheres imigrantes sofrem discriminação e maus-tratos nos postos de saúde, muitas gestantes não fazem acompanhamento pré-natal e não recebem acompanhamento médico por medo de serem discriminadas ou maltratadas, colocando em risco sua saúde e a dos bebês". A Organização Mundial da Saúde (OMS) se posicionou contra a violência obstétrica e publicou um documento sobre eliminação e prevenção de maus-tratos durante o parto.

Para Maria, a amamentação também foi difícil. O bebê nasceu com o freio da língua curto e provocou uma fissura no bico no seu peito. A recomendação médica é que ela continuasse a dar o leite – mesmo com dor e sangramento. Foi então que conheceu o Proama, Programa de Aleitamento Materno, um projeto da prefeitura de Curitiba que auxilia a amamentação correta e evita que o leite materno seja descartado. "Eles me ajudaram. Ensinaram uma outra forma do bebê mamar e melhorou."

A insegurança, a saudade e o medo são sentimentos recorrentes na vida de mães refugiadas. Atualmente, Maria não sofre mais com as complicações da gravidez e da amamentação. Mesmo assim, ela conclui que cuidar de um bebê é uma tarefa dificílima. "No Brasil eu só tenho o meu marido. E se acontecer alguma coisa com o meu filho? Com quem eu vou contar? Minha mãe sabe como é ter um filho. Mas ela não está aqui. O meu lugar é perto da família." A sudanesa Nura afirma que no Brasil ela é mãe, amiga, tia e avó. "Eu tenho que ser tudo para eles. Meus filhos não têm mais ninguém". Oula sonha em voltar para a Síria – mas sabe que esse dia vai demorar. Ela explica que na sua cultura, as mães são as guias, amigas e irmãs dos filhos. “Somos nós é que construímos os homens". E conclui: "independente de onde estiver, eu desejo que a minha filha seja feliz".

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

Fonte: Revista Marie Claire

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