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Integração cultural é desafio para profissionais imigrantes

Os melhores salários pagos em países estrangeiros são um dos principais fatores que motivam a mudança de profissionais.

Mas há ainda há outras razões. Muitos mudaram para estudar e acabarem ficando. Outros foram atraídos pela cultural local de trabalho, ou pela qualidade do serviços públicos - transporte, saúde e educação, por exemplo.

Conheça as histórias de oito profissionais altamente qualificados que foram trabalhar em outros países.

Zhen, gerente de vendas chinês no Brasil

"O que eu mais gosto de viver e trabalhar no Brasil é que consigo me identificar com a mentalidade dos meus amigos locais. Todos nós somos de países em desenvolvimento, então temos uma compreensão mútua das culturas dos nossos países. Se eu digo para alguém na Europa que chineses comem carne de cachorro, por exemplo, eles ficaram enojados, mas no Brasil, eles só dizem: 'Ah, é uma cultura diferente'. Fiquei muito surpreso.

Mas é muito difícil encontrar emprego e conseguir um visto de trabalho aqui. Muitos de meus colegas estrangeiros (da universidade brasileira) queriam ficar para trabalhar, mas muito poucos conseguiram por causa da competição com estudantes locais. Estudantes brasileiros geralmente passam dois ou três anos estagiando em empresas locais e eles também falam muitas línguas.

A burocracia é um dos obstáculos aqui. Eu ainda tenho que resolver a situação do meu visto de trabalho. Minha empresa chinesa pediu à sua distribuidora brasileira para me ajudar a conseguir um visto me contratando diretamente. Senão, eu teria que viajar de volta para a China a cada três meses porque minha empresa não está registrada no Brasil como negócio local.

Meu conselho aos profissionais migrantes que vem ao Brasil é que, primeiramente, falem a língua. Em segundo lugar, leva tempo para fazer bons amigos. Os brasileiros em geral são muito amigáveis e hospitaleiros, então é fácil fazer amigos, mas é preciso muito mais tempo até você conseguir amigos com quem possa dividir tudo. Pela minha experiência e a de todos os estudantes estrangeiros que conheço, no fim o que faz você gostar do lugar são as pessoas. Então você precisa dar um tempo para elas."

Rebecca, enfermeira filipina nos EUA

"Eu me mudei para os Estados Unidos em 2006 (trabalhava na Arábia Saudita) depois de me inscrever em uma agência de imigração que recruta enfermeiras para o país.

Em termos de trabalho, nada é muito diferente, já que o cuidado com o paciente é universal. Mas os Estados Unidos são conhecidos pela tecnologia avançada e por muitas descobertas na ciência e na pesquisa médica. As enfermeiras são mais independentes e mais ouvidas pelos médicos. Nossas opiniões também têm um impacto significativo no planejamento do tratamento dos pacientes.

Eu fiquei chocada ao ouvir as enfermeiras chamarem os médicos pelos seus primeiros nomes. Em nossa cultura, não podemos fazer isso. Levei pelo menos um ano para me acostumar.

Mas eu adoro a maneira como os relacionamentos de trabalho são mais casuais aqui. Eu recebi um prêmio de excelência em Educação pelos Pares depois de trabalhar durante dois anos no meu departamento. Foi uma lição de humildade saber que muitos foram indicados no hospital, mas eu ganhei o prêmio.

A vida aqui é como um sonho. Eu amo meu emprego. Nós acabamos de comprar uma casa. Podemos viajar quando queremos. Gastamos o dinheiro pelo qual trabalhamos duro. Podemos dar boa educação a nossos filhos. Podemos ajudar nossas famílias nas Filipinas se for necessário. Estamos livres para praticarmos a religião protestante. A vida tem mais sentido assim."

Marcus, médico britânico na Índia

"Sou de origem indiana, mas cresci em Londres e me formei como médico lá. Depois de trabalhar em diversos hospitais de Londres, eu decidi dar o salto e me mudar para Mumbai em 2008. É uma tendência de migração reversa na qual os indianos de outros países se mudam de volta para a Índia.

O mercado de saúde da Índia está em um momento muito interessante. Está se abrindo. As pessoas têm mais dinheiro e querem saúde de qualidade a um preço acessível. Há mais empresas privadas no jogo. E também há uma grande mudança na tecnologia, nos estabelecimentos e na infraestrutura médica. É excitante.

Mas é claro, também há um choque cultural reverso. Quando você trabalha em uma sociedade muito ocidental, aprende uma série de processos e tem algumas expectativas. As coisas são muito ordenadas e estruturadas na Grã-Bretanha, enquanto que na Índia é quase como uma versão controlada do caos.

Outro aspecto ao qual tenho que me ajustar é o poder aquisitivo dos pacientes. Quando você está na Índia, isso se torna um fator crítico não só pelos remédios que você prescreve, mas também pela possibilidade de que eles não possam pagar os exames. Todo o tratamento de um paciente pode fracassar ou mudar drasticamente se eles forem de uma classe mais baixa.

A diferença mais perceptível entre ser um médico na Índia e na Grã-Bretanha é que não há distinção clara entre a vida pessoal e a vida profissional. Na Índia, você sempre está de plantão. Mas uma das coisas mais recompensadoras de trabalhar aqui é que você tem uma sensação maior de autonomia. Eu trago as lições aprendidas no Ocidente para a Índia e geralmente estou na posição de ajudar a mudar as coisas para melhor, ao invés de receber ordens de outras pessoas."

Thuy, engenheiro de TI vietnamita na Noruega

"Durante o processo de recrutamento, eles me perguntaram se eu conseguiria suportar o tempo frio. Eu não tenho problemas com isso, já que eu venho do norte do Vietnã e vivi na Coreia do Sul, onde o tempo é muito frio, por quatro anos.

Eu estou muito impressionado com os princípios de igualdade desse país. A maneira como minha empresa opera reflete a cultura do país em geral. Por exemplo, depois da entrevista, eu não sabia quanto seria meu salário. Mas depois eu descobri que se tivesse as qualificações e a experiência requerida, receberia tanto quanto um norueguês. Enquanto que na Coreia do Sul, eu receberia metade do que um coreano ganhasse, mesmo que tivesse as mesmas qualificações.

A cultura de trabalho na Noruega é muito flexível. Você deve trabalhar das 9h até às 15h. Mas você pode começar mais cedo, às 7h, e sair mais cedo, contanto que trabalhe sete horas e meia por dia. Os sindicatos aqui são muito fortes. Eles negociam o salário por você. O salário é automaticamente reajustado todos os anos em relação à inflação.

É muito fácil se integrar. Apesar da barreira linguística, quase todos os noruegueses falam um inglês muito bom. As pessoas são muito relaxadas, não muito sérias. Agora estou aprendendo norueguês depois do trabalho. Também conheço alguns vietnamitas que vieram para cá como tripulantes de navios. Mas no inverno, o clima é muito frio e é muito escuro na maior parte do tempo."

Ranu, chef indonésio na Grã-Bretanha

"Quando eu cheguei, estudei para me tornar chef profissional porque queria adquirir a habilidade necessária para trabalhar na indústria de hotelaria. Eu fui subindo aos poucos: no começo, não podia trabalhar como chef, então fui ajudante.

Me lembro de limpar as coisas e aprender observando outros chefs. Como eles fazem? Que tipo de comida e menu eles oferecem? É um trabalho duro. Depois de dez anos vivendo na Grã-Bretanha, eu consegui minha autorização de residência para me inscrever para trabalhar como chef profissional em 2007. Foi uma virada na minha vida.

Agora eu estou no topo da minha carreira, me especializando na cozinha do sudeste asiático. Em minhas receitas, sempre tento usar os sabores de alimentos que encontrei em minhas viagens para a Indonésia, Tailândia, Cingapura, Vietnã, Malásia, etc.

Londres é uma cidade muito cosmopolita e multicultural com muita culinária étnica, mas a maior parte dos chefs daqui fazem refeições rápidas. Por exemplo, eles só importam os alimentos da Malásia e esquentam. Eles não estão criando algo novo. Eu não consigo trabalhar assim, preciso de inspiração em meu trabalho. Meu sonho é no futuro ter meu próprio restaurante nesse país."

Stellah, enfermeira do Zimbábue na Grã-Bretanha

"Me sinto muito privilegiada e muito feliz de ser imigrante. Tenho sorte de ter tido a oportunidade de buscar mais educação na Grã-Bretanha, me formar e trabalhar aqui, ajudando e cuidando das pessoas.

O principal nesse país é que todos sejam tratados com respeito e dignidade. Essa é a única coisa que você, como enfermeira trabalhando aqui, precisa entender. Este princípio é posto em prática, por exemplo, no modo como os pacientes são envolvidos no tratamento. Eu fiquei chocada ao ver como eles se envolvem. É o que eu realmente gosto desse país.

Outra diferença é que você é responsável por todas as suas ações e omissões. Em outros países, às vezes as coisas acontecem e são varridas para baixo do tapete. Mas aqui, ser uma enfermeira é como estar na linha de frente. Você tem que se responsabilizar por qualquer coisa que faça.

Mas o objetivo principal é trabalhar com as pessoas e encorajá-las a alcançarem o bem-estar. Isso é dedicação."
Nathan, engenheiro de petróleo britânico em Cingapura e na Coreia do Sul

"Aqui em Ulsan, na Coreia do Sul, o que mais me impressiona é a escala das operações e a dedicação da força de trabalho. Em geral, há uma cultura do 'posso fazer' aqui e as coisas são muito organizadas. O trabalho que fazemos é realizado com eficiência e entregue no prazo correto.

Há diferenças sutis entre trabalhar na Coreia do Sul e em Cingapura. Na Coreia do Sul, a hierarquia em uma organização é muito importante. Se uma posição superior não é reconhecida, isso pode ser problemático e causar descompostura ou vergonha. É importante que você saiba reconhecer quando uma discordância surge na conversa e permita que um dos lados escolha uma 'saída graciosa', para evitar desconfortos.

Morar em um lugar tão diferente é um passo em direção ao desconhecido no começo, mas você logo se encontra e percebe que, para além da cultura, as pessoas são as mesmas. A comida pode ser difícil às vezes, especialmente combinada com a barreira linguística. Mas uma vez que você vence sua hesitação inicial, encontra um ritmo. Claro que de vez em quando você sente falta das pessoas no seu país, mas hoje em dia a tecnologia ajuda a manter o contato.

A principal barreira é definitivamente a língua, mas ela é seguida de perto pela cultura. A língua coreana é realmente diferente de tudo o que já experimentei e isso inclui ter aprendido russo. Porque a Coreia do Sul é tão desenvolvida, há menos necessidade de que as pessoas aprendam outras línguas. Nós aprendemos algumas palavras e gestos e os sorrisos de alguma maneira nos ajudam sempre. Dizer que sim balançando a cabeça pode ser uma indicação de que você está sendo compreendido, mas não necessariamente de que concordam com você."

Hariram, engenheiro indiano na Alemanha

"Os alemães não trabalham tantas horas quanto os indianos, mas são muito produtivos e eficientes, graças à sua maquinaria e equipamentos. Eles têm mais tempo de férias – até 30 dias no ano – para se recuperarem e continuarem motivados. Eles são profissionais no trabalho, mas não socializam com os colegas como os indianos.

A coisa mais difícil têm sido a integração. Leva muito tempo para conseguir a confiança deles e ser aceito como um membro da equipe. Para me integrar, eu aprendi não só a língua deles, mas também detalhes culturais sobre artistas, escritores, músicos e esportistas alemães.

Na minha região, o vinho é muito popular. Se você falar com eles sobre o vinho local, eles acham que você sabe um pouco sobre a região, então se interessam em falar com você. A língua é só um aspecto, mas a cultura é importante para os que tentam se integrar. No trabalho, eu dou o meu melhor para trabalhar com qualidade e mostrar meu alto potencial. Os alemães esperam alta qualidade em qualquer trabalho que fazem. As regras são basicamente as mesmas para todos. Você tem que entregar um bom resultado.

As pessoas tendem a tomar decisões e fazer julgamentos rápidos sobre como as coisas funcionam no mundo dos outros. Então é importante entender os preconceitos. Por exemplo, em outros países, os chefes tomam uma decisão e os funcionários devem aceitá-la. Mas na Alemanha você pode dar sua opinião. Para pessoas de países em desenvolvimento, leva tempo até entender essa diferença. Eu levei seis ou sete anos para conseguir."

Fonte: BBC - 04.04.2013

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