O presente volume da série Ecumene, publicado pelo Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM) de Brasília, propõe uma leitura teológico-pastoral e socioantropológica da mobilidade humana a partir da categoria unificadora da experiência de Deus nos caminhos das pessoas migrantes. Por meio de diversas abordagens — bíblicas, sistemático-pastorais, sociais e antropológicas —, os artigos aqui reunidos mostram que a migração não é apenas um fenômeno econômico, político ou jurídico, mas também um campo teológico privilegiado, em que se reconfiguram as imagens de Deus, as práticas de fé e as formas de construir comunidade.
De forma específica, o volume busca aprofundar os processos de mudança ou reconfiguração da religiosidade das pessoas migrantes, levando em conta que a relação com a transcendência é sempre moldada e mediada pela interlocução (ou falta de interlocução) com atores significativos e pela interação com o ambiente social — um ambiente que, no caso das pessoas migrantes, na atualidade, tende a ser não apenas diferente, mas, muitas vezes, desafiador e até hostil.
Contudo, é justamente diante da hostilidade generalizada nos países de chegada — ou de trânsito — e da frequente indiferença ou omissão dos países de origem, que muitas pessoas encontram na identidade religiosa e no apoio da comunidade de fé recursos sólidos para dar sentido à realidade e enfrentar as adversidades do cotidiano. Como afirma Peggy Levitt (2007, p. 80–81), a religião transcende as fronteiras do espaço e “[as fronteiras] do tempo, pois permite que os crentes se sintam parte de uma cadeia de memória, ligada a um passado, um presente e um futuro”. O Deus Migrator acompanha as pessoas migrantes, especialmente nas mobilidades marcadas pela precariedade, pela vulnerabilidade e pela ruptura sociocultural.
Nessa dialética entre continuidades e descontinuidades, que caracteriza o processo migratório, inclusive no que diz respeito à relação com a transcendência, a fé vivida no dia a dia pode se tornar fonte de consolação, edificação e vivificação: em meio a todos os desafios, a religiosidade pode garantir um conforto (consolação) ancorado na memória de uma tradição viva; pode promover uma maturação da fé (edificação), superando formas superficiais ou até fundamentalistas de adesão religiosa; pode, enfim, revitalizar (vivificação) o compromisso em prol da superação das adversidades, não apenas individuais, mas também comunitárias e sistêmicas.
Os vários artigos do livro, com abordagens diferentes, destacam as numerosas variáveis que incidem sobre e condicionam os processos de reconfiguração da identidade religiosa a partir das experiências migratórias. A leitura pode contribuir para o aprofundamento da temática e promover ações sociopastorais que fortaleçam a autonomia e o protagonismo das pessoas migrantes, evitando que a gravidade dos desafios enfrentados em condição de extrema vulnerabilidade possa desencadear situações de desumanização, desânimo – inclusive espiritual – e subjugação – corrosão da agência.
Bibliografia
LEVITT, Peggy. Rezar por encima de las fronteras: cómo los inmigrantes están cambiando el panorama religioso. Migración y desarrollo, n. 1, p. 66-88, 2007.
