Enquanto a circulação de capitais, mercadorias e informações atravessa fronteiras com velocidade crescente, encontramos obstáculos que ameaçam cada vez mais os direitos humanos de quem migra. Em diferentes partes do mundo, o endurecimento das políticas migratórias, a militarização das fronteiras, as prisões, deportações, o medo e limitações que elas produzem (deportabilidade) e o crescimento dos discursos xenofóbicos revelam uma característica marcante da conjuntura contemporânea: o direito de migrar continua sendo profundamente desigual entre povos, raças/etnias, classes e gêneros.
Nesse cenário, a atuação da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas (MSCS) adquire importância única. Sua presença junto às pessoas migrantes, refugiadas e em situação de vulnerabilidade representa um compromisso ético com a defesa da vida e da justiça social, especialmente quando determinadas políticas e discursos públicos procuram reduzir seres humanos à sua mera condição documental. Como nos alerta Papa Leão: “nenhum de nós é um simples número no bilhete de identidade ou um código de identificação, mas uma pessoa, única e insubstituível”.
Fundada em 25 de outubro de 1895, na Itália, por São João Batista Scalabrini, com a colaboração de Madre Assunta Marchetti e Padre José Marchetti, a Congregação nasceu em um contexto marcado pela emigração europeia e pelas dificuldades enfrentadas por milhares de famílias que deixavam seus países em busca de melhores condições de vida. Mais de 130 anos depois, o mundo se transformou, assim como os países de origem, trânsito e destino dos movimentos migratórios. Ainda assim, permanecem estruturas de desigualdade, exploração e exclusão que tornam a missão scalabriniana tão necessária quanto em sua origem.
A realidade contemporânea evidencia que as fronteiras não são apenas delimitações geográficas. Elas também se manifestam nas dificuldades de acesso à saúde, à educação, à moradia, à documentação, ao trabalho digno e à proteção social. Manifestam-se no racismo, na xenofobia, nas desigualdades de gênero e nas diferentes formas de discriminação que atravessam as experiências de mobilidade humana. Para muitas pessoas, a ameaça da deportação, a insegurança documental e a possibilidade de separação familiar fazem parte da vida cotidiana.
É justamente nessas realidades que a presença das Irmãs Scalabrinianas ganha significado. Seja no acolhimento de pessoas refugiadas, na assistência a famílias migrantes, na promoção da educação, na atenção à saúde ou na conscientização de toda a população, a Congregação desenvolve uma missão que reconhece a dignidade humana como princípio, independentemente da nacionalidade, da origem étnico-racial, da condição econômica ou da situação migratória.
É importante reconhecer que as pessoas migrantes e refugiadas são sujeitos de direitos, portadores de conhecimentos, experiências, histórias e capacidades de organização e transformação social. Nesse sentido, o verdadeiro alcance da missão das Irmãs Scalabrinianas está no que se constrói com eles e elas, no estar a serviço e acompanhar suas jornadas, por meio da escuta, do reconhecimento de suas trajetórias e do fortalecimento de seu protagonismo.
A história da Congregação demonstra que a fé pode e deve se traduzir em compromisso com as realidades sociais e em respostas às injustiças de cada tempo. Trata-se de uma espiritualidade que se manifesta na presença cotidiana, na construção de vínculos e na disposição de caminhar ao lado e a serviço de pessoas cujos direitos são frequentemente negligenciados. Nas palavras de Papa Francisco: “sigam caminhando com coragem ao seu lado [dos refugiados], acompanhando-os e também se deixem guiar por eles: os refugiados conhecem os caminhos que conduzem à paz, porque conhecem o odor azedo da guerra”.
Essa missão também se expressa na produção e na disseminação do conhecimento. Por meio do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), a Congregação contribui para a pesquisa científica, a reflexão crítica e a articulação de redes internacionais dedicadas à compreensão das migrações. Em um período marcado pela circulação de desinformação e pela instrumentalização política dos deslocamentos humanos, produzir conhecimento cientificamente fundamentado e comprometido com os direitos humanos constitui outra dimensão fundamental desse trabalho.
Mais de 130 anos depois de sua fundação, a Congregação das Irmãs Scalabrinianas permanece atual pela continuidade de sua história e por sua capacidade de responder aos desafios do presente.
Porque, em tempos de muros, construir pontes continua sendo uma das expressões mais necessárias da humanidade.
